
Coluna Teatro

Resenhas críticas – Porto EnCena – 2ª Edição
Nesta sexta-feira, dia 29 de maio, a continuidade da Coluna Teatro, que tem por objetivo publicar - nesse primeiro momento - resenhas críticas dos espetáculos apresentados no Festival de Teatro Porto EnCena – 2ª Edição, traz a análise do Teatro Imersivo 3D 'Desastroso Carnaval', por Keila Araújo - professora na UFSB e coordenadora do projeto de extensão Mútua - Grupo de leitoras(es) que escrevem literatura; além de Jamile Alexandrino- estudante da Licenciatura em Linguagens e suas Tecnologias na UFSB, pesquisadora na Iniciação Científica. A Coluna é uma parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e o Jornal do Sol.
A experiência sensorial da história da Bahia em Desastroso Carnaval, teatro imersivo com tecnologia 3D
Desde a chegada ao espaço reservado para a apreciação de Desastroso Carnaval, o público já adentra em uma experiência singular. A equipe recebe cada pessoa, oferece uma cadeira ali na área externa do Centro de Cultura, estão todos ao redor, mas, quem põe no rosto o equipamento de imagem em 3D e ativa a exibição escolhe entre as três perspectivas da história e já é transportada para a Salvador do início do século XIX e revisita momentos marcantes da história da Bahia, em especial o martírio da abadessa Joana Angélica, em 1822.
A obra se constrói como um mosaico de perspectivas, a mesma situação é apresentada em três versões diferentes, revelando olhares múltiplos sobre o acontecimento. O uso de recursos de som ambisonics intensifica o efeito imersivo da experiência, pois as cenas dos vídeos são acompanhadas de um áudio espacial que captura e reproduz sons em todas as direções frente, trás, lados e até acima e abaixo criando uma experiência sonora que simula a vivência direta. A montagem também segue uma direção fragmentada, a montagem ucrônica como método, e leva o público a visualizar versões diversas do mesmo acontecimento, notar contrastes e fazer parte das possíveis conexões de sentido. Com os óculos 3D que permitem acessar os efeitos do som e imagem próprios do cinema tridimensional, cada pessoa atravessa a cena, sente o espaço e vivencia os acontecimentos como observador de uma realidade deslocada no tempo e no espaço. É como se memória, arte e tecnologia se entrelaçassem para dar corpo a uma experiência que deixa de ser categoricamente externa para se expandir dentro de cada espectador por meio dos efeitos sensoriais da produção.
A narrativa se abre em meio ao caos de um carnaval inesperado em 1822, marcado por confusões e desastres que mudariam para sempre a história da Bahia. No centro desse turbilhão, está o episódio trágico da morte da abadessa Joana Angélica, que, ao tentar impedir a invasão do Convento da Lapa por soldados portugueses, foi brutalmente assassinada. Seu gesto de coragem a transformou em mártir da Independência e símbolo da resistência contra a opressão colonial.
O desdobramento da história em versões traz Urânia Vanério, ainda menina, que testemunhou a cena e registrou sua visão inebriada pelo olhar da infância. O Brigadeiro Madeira de Mello, envolvido diretamente nos conflitos, oferece sua interpretação marcada pela lógica militar e pela política da época. E, por fim, surge a voz da própria Joana Angélica, que nos conduz ao íntimo de sua decisão e ao peso de seu sacrifício.
A cenografia recupera uma ambientação de época bastante precisa quando as filmagens acontecem nos espaços internos e externos de prédios históricos do estado da Bahia, embarcações e portos. Os métodos de montagem criam efeitos de imagem instigantes como a visualização de elementos do cenário que aparecem estáticos, enquanto o plano de fundo permanece em movimento. O deslocamento temporal se acentua ainda mais com figurinos bastante elaborados e coerentes com o universo da época, enquanto o uso de máscaras traz uma forte marca do teatro e seu lastro histórico, também as expressões corpóreas e os gestos contrastam com o caráter fílmico e reforça a estética teatral da produção.
A condução da obra segue uma proposta experimental que ativa referências da história dos fatos, remetendo ao passado, em contraste com recursos de tecnologia recente para manter um constante movimento entre passado e presente a ponto de criar uma atmosfera que beira o onírico e surpreende o público com cenas de impacto e estranhamento.
O Desastroso Carnaval ultrapassa os limites do teatro e do cinema tradicionais ao unir memória histórica, tecnologia e sensibilidade artística em uma experiência verdadeiramente imersiva. A escolha de revisitar o martírio de Joana Angélica por meio de múltiplas perspectivas (Urânia Vanério, Brigadeiro Madeira de Mello e a própria freira) confere densidade e complexidade à narrativa leva o público partícipe a compreender não apenas os fatos, mas também as emoções e contradições que os cercam. Assim, a obra se consolida como uma experiência inovadora e profundamente humana, capaz de transformar um marco histórico em vivência sensorial e crítica, reafirmando o poder da arte como dispositivo de memória, resistência e reinvenção.
O site Himersoteca mantém as potencialidades da imersão e apresenta um mapa interativo com acesso aos ambientes e cenas de Desastroso Carnaval, além de apresentar dados sobre o processo de produção das filmagens e da edição da obra que já chegou a mais de mil e duzentos estudantes das escolas de ensino médio da rede estadual da cidade de Porto Seguro, como retorno social do projeto fomentado pela FAPESB/SECTI Edital Metaverso no 2 de julho.
Ficha técnica de Desastroso Carnaval:
Autor: Leonardo da Silva Souza
Pesquisa histórica: Vanilda Salignac e Dr. Leonardo Souza
Pesquisa dramatúrgica: Leonardo Souza e Éder Rodrigues
Trilha sonora: Daniel Fils Puig
Design de Som: Fábio Janhan
Design de Máscaras: Pâmela Peregrino
Dramaturgia: Leonardo Souza
Tecnologia: Leonardo Souza
Intérpretes:
Robson Vieira
Priscila de Cássia
Silvia Lira
André Simião
Fabrício Godinho T
Tânia F.
Thiago N.
Nayara Moura
Lorrana Amparo
Bolsistas:
Robson Vieira
Priscila de Cássia
Mateus Moura
Daniel de Jesus
Marcely Gomes
Filipe de Souza Couto
Nayara Moura
Voluntários:
Sabrina Piloto
Maiara Scher
Beatriz N.
