
Último dia teve contação de histórias, roda sobre imagens e grafismos e atividade de conscientização sobre a proteção animal
O Festival Caju de Leitores encerrou sua 5ª edição nesta sexta-feira (4), na Oca Tururim, na Aldeia Xandó, em Porto Seguro (BA). Ao longo dos três dias de programação, o evento recebeu 16 autores e convidados e reuniu centenas de participantes em atividades dedicadas à literatura, à oralidade, à educação, às artes e aos saberes indígenas.
A programação do último dia começou com a anciã e mestra dos saberes ancestrais Pataxó Maria Coruja, homenageada desta edição, e a escritora Lucia Tucuju. Juntas, elas compartilharam histórias de seus ancestrais, cantos e danças com o público.
Em sua quarta participação no festival, Lucia também integrou, neste ano, o Caju Itinerante, projeto que visitou dez escolas da região com contações de histórias e conversas com os estudantes.
“O Caju é sempre um presente. São muitas emoções e alegrias na vida pessoal, espiritual e profissional. É um lugar de novas experiências e de imersão. Hoje, tive o prazer de estar ao lado de Maria Coruja, uma liderança muito reconhecida pelo povo Pataxó. Foi uma honra”, afirmou.
Imagens e grafismos indígenas
A mesa “Quando as imagens também contam as histórias dos bichos” reuniu a desenhista e roteirista Sol Itaputyr, do povo Jeripankó, o artista e tatuador Tucunã Pataxó e o ilustrador Maurício Negro. O encontro discutiu como desenhos, ilustrações e grafismos podem transmitir histórias, conhecimentos e referências ancestrais.
Em sua primeira participação no Caju de Leitores, Sol destacou o acolhimento e os conhecimentos compartilhados durante o festival. “Eu não imaginava que levaria tanta bagagem de conhecimento, que seria tão bem acolhida e que me emocionaria tanto. Quero agradecer aos meus ancestrais, ao meu pai Tupã, aos Encantados e a este território”, declarou.
Responsável pela identidade visual do Caju de Leitores desde 2024, Tucunã falou sobre a importância de sua arte para expressar a força, a resistência e a luta do povo Pataxó. “Por meio do trabalho que desenvolvemos com os alunos, criamos essa conexão que temos com nossos ancestrais e nossos avós, quando nos sentamos à beira da fogueira para escutar os mais velhos. A gente também ensina essa conexão na educação: a importância de ouvir e compartilhar, fortalecendo a cultura indígena”, afirmou.
Para Maurício Negro, o festival tem contribuído para formar uma rede entre autores, artistas, educadores e comunidades. “As conversas acontecem em todos os lugares e caminhos. O mais interessante é que o Caju está tecendo uma rede de contatos e criando conexões. Os educadores são mediadores de cultura com as crianças, principalmente neste momento em que se repensa a educação no mundo”, ressaltou.

Colheita de Livros reúne autores e público
À tarde, a Colheita de Livros — Encontro com Autores reuniu Duca Caraíva, Adriana Pesca, Lucia Tucuju, Auritha Tabajara, Geni Nuñez, Maurício Negro, Carina Pataxó e outros convidados para uma conversa sobre literatura indígena, memória e território.
“Esse é um momento ímpar, de estar à mesa com escritoras e escritores que fizeram parte da minha pesquisa de mestrado como pioneiros na construção do que hoje conhecemos como literatura indígena brasileira contemporânea. É um prazer compartilhar uma mesa com esses grandes autores e poder dizer que também faço parte dessa construção”, afirmou Adriana Pesca, primeira mulher indígena da Bahia a ocupar uma cadeira na Academia de Letras de Porto Seguro.

Proteção animal e apresentações culturais
No Palco Sabará, o projeto Caraíva Proteção Animal apresentou informações e promoveu uma atividade de conscientização sobre o cuidado e a proteção dos animais. O espaço também recebeu uma contação de histórias do projeto Corra pro Abraço, que desenvolve ações de garantia de direitos e redução de riscos junto à juventude.
Após a Colheita de Livros, os Marujos Pataxó realizaram uma apresentação cultural que marcou o encerramento do último dia do festival.
Para Joanna Savaglia, idealizadora e gestora do Caju de Leitores, a 5ª edição mostrou o amadurecimento do festival e o aprofundamento dos temas abordados nas rodas de conversa.
"O Caju 2026 foi um evento muito especial e tem sido, cada vez mais, acolhido pela comunidade. Esse ano tivemos a primeira artista internacional, que encantou as pessoas com as suas histórias. Além disso, shows, rodas de conversa e todas as atividades, que tiveram grande participação. Estamos contentes com o resultado. Acreditamos estar no caminho certo. Essa 5ª edição também trouxe um festival maduro, com uma curadoria muito refinada. E, apesar de menos rodas de conversa, todas foram muito bem pensadas. Esses 5 anos de percurso do Caju, fez desse evento consolidado, adotado pela comunidade e pelos municípios vizinhos também. Chegamos num nível de maturidade, que o Caju já transmite conhecimento, atrai pessoas interessadas por leitura e literatura, e a ideia é que cada vez mais pessoas comecem a escrever livros e contar suas histórias”, finalizou, confirmando a realização da 6ª edição do Caju de Leitores em 2027.

Sobre o festival
Criado em 2022, o Festival Caju de Leitores tem como eixos a formação de leitores, a ampliação do acesso à literatura indígena e o encontro entre escritores, artistas, educadores, estudantes, lideranças e comunidades. Até 2025, o festival alcançou mais de 12 mil pessoas em suas diferentes ações.
A 5ª edição teve como tema “Um Manifesto de Bichos”, que propôs reconhecer os animais como seres presentes nas histórias, nas memórias e nos conhecimentos compartilhados entre gerações. A proposta relacionou bichos, ancestralidade, território, língua, natureza e os modos indígenas de compreender a existência.
O Festival Caju de Leitores é uma realização do Ministério da Cultura e da Savá Cultural. Conta com patrocínio da Neoenergia e do Itaú, via Lei Rouanet, além da Secretaria Municipal de Educação de Porto Seguro, por meio da Superintendência de Cultura e Patrimônio Histórico. Tem ainda parceria acadêmica da Universidade Federal do Sul da Bahia.
BOX — O Caju pelo olhar do público
“O Caju é um evento muito importante. Reúne escritores de diversos povos e tem essa diversidade, o que considero muito positivo. Trazer esses escritores permite que os leitores conheçam não apenas os livros, mas também quem escreve, de onde vem e como é o seu território. Estou ansiosa para o próximo.” Ana Cunha, moradora
“Gosto do Caju, principalmente das contações de histórias e de ajudar minha mãe a vender artesanato.” Maíny Brás, 10 anos
“Sou um jovem aprendiz da cultura indígena do povo Pataxó e estou aprendendo e praticando nossa língua materna, o Patxohã. O Caju é muito bom porque transmite ensinamentos sobre história e literatura para os jovens e as crianças. Além disso, ajuda as pessoas não indígenas a conhecer e compreender um pouco da nossa língua.” Wekanã Alves, estudante
“É a primeira vez que participamos. Vendemos artesanato, de onde tiramos nosso sustento, e gostei muito do Caju. Acompanhei as falas dos mais velhos e dos ancestrais, ouvi as histórias de Maria Coruja e me emocionei. Sou neta de Tururim, antigo cacique da Aldeia Xandó, e considero muito importante homenagear nossos anciãos.” Thayane Brás Ferreira, artesã indígena da Aldeia Bugigão
“O Caju tem o poder de reunir diferentes culturas. É um momento de união entre etnias e de fortalecimento. O que mais gosto é a participação das escolas e o aprendizado sobre cultura e literatura. Tenho duas crianças que amam os livros. É uma troca de conhecimentos, e sentimos isso cada vez que recebemos uma etnia diferente.” Michelle Souza Braz, indígena da Aldeia Xandó
“É a segunda vez que venho. É um encontro maravilhoso, e gosto de ouvir as histórias das diferentes aldeias indígenas presentes, que compartilham suas experiências e promovem essa troca. Queria muito acompanhar Tucunã, porque acho os desenhos dele maravilhosos. Como também sou designer, fico apaixonada pela arte dele.” Maria Paula, designer e moradora de Arraial d’Ajuda