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Caju de Leitores aproxima narrativas indígenas do Brasil e da Argentina no segundo dia

Programação na Aldeia Xandó também reuniu contação de histórias, teatro, pesquisa sobre jovens leitores e debate dedicado à educação indígena inclusiva

O segundo dia do Festival Caju de Leitores reuniu, nesta quinta-feira (3), narrativas indígenas do Brasil e da Argentina em uma programação dedicada à ancestralidade, à oralidade, à literatura e à educação. As atividades aconteceram na Oca Tururim e no Palco Sabará, na Aldeia Xandó, Território Indígena Barra Velha, em Porto Seguro (BA).

Um dos destaques foi a roda “Povos indígenas de Abya Yala: conexão ancestral por meio do livro literário indígena — quem é o nosso bicho ancestral?”, com a escritora e liderança indígena argentina Mariela Tulián, o escritor Sairi Pataxó e o mediador cultural e produtor Sebastian Gerlic.

O encontro abordou a literatura indígena produzida no Brasil e na Argentina, os animais ancestrais presentes nas histórias de diferentes povos e as relações entre território, espiritualidade e produção literária.

Mariela contou que a pantera negra é um animal ancestral de seu povo e destacou a oportunidade de compartilhar com as crianças histórias, conhecimentos e experiências de seu território.

“Eu venho de um território habitado por espíritos protetores, e esses espíritos são os animais do meu povo. São bichos-irmãos, com quem compartilhamos o território. Temos consciência de que eles nos protegem e são os espíritos com os quais nos identificamos”, afirmou.

Argentino radicado no Brasil, Sebastian Gerlic desenvolve há mais de 25 anos trabalhos com povos indígenas, especialmente no Sul da Bahia. Durante a conversa, ele destacou como a produção de livros favorece trocas entre diferentes povos, línguas, territórios e expressões artísticas.

Maria Coruja e Auritha Tabajara compartilham histórias

A programação começou com uma contação de histórias conduzida por Maria Coruja, anciã e mestra dos saberes ancestrais Pataxó homenageada nesta edição, e pela escritora Auritha Tabajara.

Auritha comparou os anciãos a “bibliotecas vivas” e falou sobre a emoção de dividir o encontro com Maria Coruja.

“Estar ao lado dos anciãos é sempre muito rico, principalmente porque a pessoa que mais me encanta nesta vida é minha avó. Estar com outros anciãos é estar com um pedacinho dela. É um privilégio ter feito parte dessa atividade ao lado da homenageada, dessa biblioteca viva do povo Pataxó. Nós, do povo Tabajara, também temos as nossas bibliotecas vivas e sabemos o quanto isso é importante”, declarou.

Para a escritora, o Caju de Leitores também se tornou um espaço de aprendizado e cura por meio da literatura, experiência que ela chama de “LiteraCura”.

“Eu acho que o Caju de Leitores é um grande festival da LiteraCura. Tenho muito a agradecer por tanto aprendizado e por tanto conhecimento que a gente leva”, afirmou Auritha.

A manhã contou ainda com a apresentação da Cia. de Teatro Livro Aberto, com a peça Ave Alegria, no Palco Sabará, e com a abertura da exposição “A terra é corpo, a floresta é sopro y o mar é voz”, do Coletivo Ybryda.

Pesquisa e educação indígena integram programação

À tarde, a programação concentrou atividades voltadas à educação, à formação de leitores e ao trabalho desenvolvido por professores e educadores.

A I Pesquisa Caju de Leitores foi apresentada a professores e demais participantes do festival. Realizado pela JLeiva Cultura e Esporte, o levantamento ouviu 976 estudantes e investigou a relação de crianças e jovens de escolas indígenas de Porto Seguro e do distrito de Caraíva com os livros e a leitura em diferentes contextos escolares.

Na sequência, Vanessa Guarani Ratton, Carina Pataxó e Lucia Tucuju participaram da roda “Educação indígena inclusiva: para humanos e não humanos”. A conversa abordou metodologias de ensino e aprendizagem construídas a partir das relações entre educação, território, culturas indígenas, animais e seres encantados.

O segundo dia também teve o Vozes da Escola, espaço dedicado às apresentações dos estudantes, e terminou com a participação do Grupo Cultural do Porto do Boi.

Caju de Leitores chega à 5ª edição

Criado em 2022, o Festival Caju de Leitores promove o encontro entre literatura, educação e território, aproximando escritores, artistas, educadores, estudantes, lideranças indígenas e comunidades. Com ações dedicadas à formação de leitores e à ampliação do acesso à literatura indígena, o festival alcançou mais de 12 mil pessoas até 2025.

Em sua 5ª edição, o Caju de Leitores apresenta o tema “Um Manifesto de Bichos”, inspirado na presença dos animais nas histórias, nas memórias e nos conhecimentos transmitidos entre gerações. A proposta aproxima bichos, ancestralidade, língua, natureza e território, destacando diferentes modos indígenas de compreender a existência.

O Festival Caju de Leitores é uma realização do Ministério da Cultura e da Savá Cultural. Conta com patrocínio da Neoenergia e do Itaú, via Lei Rouanet, além da Secretaria Municipal de Educação de Porto Seguro, por meio da Superintendência de Cultura e Patrimônio Histórico. Tem ainda parceria acadêmica da Universidade Federal do Sul da Bahia.

 

Programação de sexta-feira — 4 de setembro

7h30 — Recepção e acolhimento das escolas e do público em geral

8h — Contação de histórias
Com Maria Coruja e Lucia Tucuju

9h — Quando as imagens também contam as histórias dos bichos
Com Maurício Negro, Sol Itaputyr e Tucunã Pataxó

10h30 — Território Vivo: Caraíva Proteção Animal
Palco Sabará

14h — Vozes da Escola
Palco Sabará

14h30 — Colheita de Livros — Encontro com Autores
Com Duca, Adriana Pesca, Lucia Tucuju, Auritha Tabajara, Geni Nuñez, Maurício Negro, Carina Pataxó e outros convidados

15h30 — Apresentação dos Marujos Pataxó