'Sonhário: O Desejo dos Outros' explora teatro tradicional a partir de cadernos de sonhos

 

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Resenhas críticas – Porto EnCena – 2ª Edição

Nossa Coluna Teatro no Jornal do Sol tem por objetivo publicar - nesse primeiro momento - resenhas críticas dos espetáculos apresentados no Festival de Teatro Porto EnCena - 2ª Edição.
Hoje, trazemos o espetáculo "Sonhário: O Desejo dos Outros" - espetáculo com produção do curso Artes do corpo em cena,  dirigidos pela professora Aline Nunes -, com análise da professora do curso de jornalismo da UFSB, Célia Regina da Silva. A Coluna é uma parceria com a Universidade Federal do Sul da Ba
hia (UFSB).

'Sonhário: O Desejo dos Outros' explora teatro tradicional a partir de cadernos de sonhos

Criada por estudantes da UFSB no componente Laboratório de Metáforas e Corporalidades, a peça nasceu da pesquisa da professora Aline Nunes sobre sonhos (embasada em Davi Kopenawa Yanomami e Sidarta Ribeiro) aliada ao desejo da turma de explorar o teatro tradicional, tendo como ponto de partida cadernos de sonhos. A obra convida a uma imersão sensorial que barra as fronteiras entre o real e o surreal.

Inspirada na poética do samba, em que o “sonho que se sonha junto é realidade”, a peça explora o universo dos sonhos como uma força capaz de transformar a vida real. Com sutileza e provocação, a narrativa entrelaça alucinação, memória e realidade, usando essa dimensão simbólica para dar liga a temas brutais como exploração, trabalho, sexo, traição e violência. Críticas à precarização do trabalho, à exploração da mão de obra e à figura histriônica de Donald Trump são alguns dos assuntos abordados ao longo dos noventa minutos de espetáculo.

Caderno de Sonhários apresenta como figura central a Mãe-Terra, personificada a partir de uma dolorosa história real: a de uma mulher palestina grávida que, ao sofrer a violência extrema de um bombardeio, teve seu parto realizado no limite da sobrevivência. Com base nessa tragédia, símbolo do impacto devastador das guerras sobre a população civil, a obra transforma a dor em potência poética.

A complexidade da vida real versus a delicada leveza de nossos sonhos é o fio condutor do texto. Imagens, sons e sentidos contrastam a dureza do mundo concreto com a vastidão e o lirismo do universo interior. Nessa tensão constante, o palco se torna o território onde o visível e o invisível colidem, momento de questionamento sobre até que ponto nossas aspirações imaginadas podem resistir às exigências do cotidiano.

O desempenho dos atores e atrizes em cena foi surpreendente, revelando uma entrega visceral que transformou cada gesto e silêncio em pura intensidade dramática. Com um domínio cênico exemplar, o elenco transitou com fluidez pelas complexidades e nuances dos personagens, prendendo a atenção do público e conferindo verdadeira verossimilhança ao espetáculo.

Neste sentido, a busca por dimensionar emoções e alucinações corporais de forma autêntica exige uma dinâmica que rompe com as convenções. É nessa autenticidade corporificada que se evidenciam a direção arguta e a dedicação do grupo ao jogo cênico.

No impacto da primeira cena, figurino e espaço cênico dialogam de forma instigante. A figura queer, com vestido verde, percorre a cena munida de um conduíte amarelo, elemento plástico e sonoro que rabisca o ar, instaurando a dimensão onírica da montagem. Já o lenço sobre o rosto da personagem principal faz alusão à trágica história da mulher palestina.  

O espetáculo foi plenamente bem-sucedido em sua proposta. Ao articular performances viscerais, uma cenografia expressiva e uma crítica social afiada, a montagem conseguiu materializar a tensão central entre a delicada leveza dos sonhos e a crueza da realidade. Os efeitos de sentido projetados na concepção da peça não apenas funcionaram no palco, mas ressoaram de forma marcante e provocativa na plateia.

O texto nasce das vivências teatrais e pesquisas da diretora, que promove uma espécie de revival de suas experiências do período de formação. Essa trajetória se reflete no palco na fusão entre autores clássicos e contemporâneos que marcaram sua formação — um percurso que transita da dramaticidade de Tennessee Williams e da releitura do icônico Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, a debates extremamente atuais, como a gamificação e a cultura do TikTok.

Com sutileza e criatividade, a arte tem a rara capacidade de tocar em temas espinhosos. Assim como no ato de sonhar, em que o cérebro costura passado e presente para ressignificar traumas, saudades e aprendizados, a criação artística nos prepara para o amanhã. Em uma cidade marcada desde a sua origem pela violência colonial, como Porto Seguro,  cujos reflexos ainda ditam as formas de ocupação do espaço urbano, o teatro surge como o território mais apropriado para encarar essa realidade. É no palco que se abordam, com maestria e sensibilidade, as singularidades, os paradoxos, as desigualdades e os sonhos que atravessam a nossa história. A análise profunda sobre os sonhos possibilita o reconhecimento de que a nossa identidade vai muito além da história que contamos quando estamos acordados. Ela prova que, no fundo, guardar a capacidade de sonhar, dormindo ou acordado, é a única forma de continuar reinventando o real.

A cena final, com os atores cantando em espanhol, remete aos musicais e encerra a montagem em tom de catarse, em ode à latinidade.  Essa ruptura estilística contrasta a dureza dos conflitos encenados com o lirismo do canto, convidando o público a sair do teatro não pelo peso da realidade, mas pela potência libertadora do sonho compartilhado.

O manancial imagético, o senso de criação coletiva, o rigor profissional do grupo, a dedicação dos estudantes e a direção visceral culminam na potência do resultado final. O fogo que ronda a terra abre-se, assim, para a pura criatividade e para as infinitas possibilidades que o sonhar pode gestar.