
Coluna Teatro

Resenhas críticas – Porto EnCena – 2ª Edição
Nesta quarta-feira, dia 1º de julho, a continuidade da Coluna Teatro, que tem por objetivo publicar - nesse primeiro momento - resenhas críticas dos espetáculos apresentados no Festival de Teatro Porto EnCena – 2ª Edição, traz a análise do espetáculo Atendendo a Pedidos, do A Patela Cia de Teatro, por Roberto Hermano, Mariana Souza Campos, Maria Júlia Moraes (estudantes da Licenciatura Interdisciplinar em Linguagens, integrantes do Mútua e Keila Araújo, professora da LI Linguagens e coordenadora do Mútua - Grupo de Leitoras(es) que escrevem literatura. A Coluna é uma parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e o Jornal do Sol.
O teatro como espaço de provocação em Atendendo a pedidos, da A Patela Cia. de Teatro
Atendendo a Pedidos é uma armadilha perfeita para quem, enganado pelo título trivial da peça, vai ao teatro na expectativa de um entretenimento desconectado de grandes reflexões, imaginando se tratar apenas mais um espetáculo facilmente esquecível e sem grande profundidade. Antes de a peça de fato começar (e já tinha começado), o ator em cena, Robson Vieira, explica aos espectadores que o livre-arbítrio é fundamental para o fluir da peça, a participação da plateia faria parte do espetáculo e reitera: todos são livres para agir como lhes apetecer.
O alerta de “vem coisa boa por aí” é ligado logo no início, quando o ator aborda criticamente o mito da criação, e confronta a ideia de que somos seres especiais sobre a terra e que, muitas vezes, nos coloca diante de um enorme vazio existencial, quando nos deparamos com uma realidade que nos trata como mercadorias descartáveis e prontamente substituíveis.
Da sujeira no fundo da bacia de escalda pés, surge uma massa disforme que será moldada, soprada e então se tornará viva. Assim, a trama começa com uma releitura da criação do mundo, passando pelos planetas, o sol, a lua, a natureza e os animais, até chegar à criação do ser humano. Esse início tem um ritmo mais tranquilo, quase como se ele estivesse contando uma história antiga, contemplativa.
A perspectiva temporal da peça muda e chega ao cotidiano do trabalhador comum no mundo contemporâneo. Um rapaz que trabalha fazendo cobranças por um longo expediente para comprar uma casa e sustentar toda a sua família. O ritmo de vida é extremamente mecânico e acelerado, e ele não tem tempo para respirar ou gozar suas pequenas conquistas. Ele está exausto e desconectado de suas raízes. Mas quais raízes? A relação desse personagem com o trabalho abre espaço para o questionamento do que é ser um cidadão. Ser uma pessoa se resume a trabalhar? Essa rotina é determinada por compromisso de financiamento, o carro que comprou, a casa, a responsabilidade de sustentar a família. A vida passa a se configurar dentro de uma estrutura que enreda e impacta nas ações e “escolhas” das pessoas.
O planejamento do cenário e do figurino está alinhado com a voz direta e crua do ator em cena, na interpretação performática de cada personagem. Há uma preocupação em evitar excessos de elementos no palco: temos um banco de madeira, uma bacia com fogo, com água, barro, uma roupa de tom neutro em algodão, uma barba - talvez fosse o cabelo - que se desloca para o rosto, ainda na altura do olhos. Os movimentos do corpo e das mãos do ator, sua consciência corporal, seu movimento no palco e nos demais espaços do teatro intensificam a proposta de deslocamento de sentidos que o espetáculo compõe para confrontar as formas de existir no mundo politicamente orquestrado, sem se eximir da parte que lhe falta, mas trazendo também a parte que lhe cabe, como parte, participante.
O ator, em tom difícil de ser determinado graças à ironia ambígua de suas falas e movimentos, escancara o quão previsíveis e repetitivas costumam ser as nossas vidas, em que os comportamentos, pensamentos e objetivos são determinados por um sistema que ignora completamente as individualidades, o que, como é tratado na peça, leva a uma ideia romântica da vida artística, como se esta fosse uma espécie de nirvana, que nos libertaria desse ciclo infinito.
O barro, matéria-prima da criação mítica abordada lá no início, reaparece no final, mas aqui ele é real, tangível e trágico, próximo da nossa realidade física no espaço e no tempo. A referência e o vídeo exibido são da tragédia ocorrida na barragem de Mariana, em 2015, mas as reflexões que a peça desperta podem ser aplicadas nos mais variados contextos.
Atendendo a pedidos, então, leva a ver outro tipo de lama, outro tipo de barro: os rejeitos tóxicos que soterram e matam. Matam “porque pode, é direito e está escrito”, citando falas do ator no palco. Ergue-se no palco, portanto, “O todo poderoso poder do capital”, das multinacionais que alastram latifúndios, morte e destruição.
Esta versão do espetáculo adicionou, ao final, imagens e cobertura jornalística do crime ambiental e humanitário das empresas responsáveis, o que trouxe a ênfase da barbárie cometida, da desumanização calculada e desconsiderada. Na apresentação do ano anterior, a peça se encerrava com o som da lama pelas vias respiratórias de uma criança enquanto a mãe a chamava, como fazia em todo fim de tarde. Como pode a lua ainda brilhar assim sobre este país?
Seguindo o tom provocativo, o ator se dirige, mais uma vez, ao público e diz algo como “pronto, quem estava dormindo já pode acordar”, mas a verdade é que é impossível alguém dormir ali. O ritmo da apresentação composto por elementos de som, luz, atuação performática e interativa prende a atenção do público para além do tempo de apresentação. Atendendo a pedidos irá ecoar pela noite e pelos dias que seguem até que as urgências do cotidiano recobrem toda a atenção.
