Coluna Teatro

Resenhas críticas – Porto EnCena – 2ª Edição
Nesta quinta-feira, dia 2 de abril, iniciamos a Coluna Entre Atos. A coluna tem por objetivo publicar - nesse primeiro momento - resenhas críticas dos espetáculos apresentados no Festival de Teatro Porto EnCena – 2ª Edição. Em parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e o Jornal do Sol, estudantes da graduação compartilham seus olhares e análises sobre as obras. A primeira resenha tem como autores: Emmisson Ribeiro, Keila Araújo, Rafael Santana, Valdileia Guimarães e Vitória Santos, que analisam a obra ‘Os Porquinhos e o Lobo Uau’, da Cia Teatral Dionísio.

O riso e a renovação da linguagem na peça Os Porquinhos e o Lobo Uau
Após a temporada de apresentações em 2025, o espetáculo Os Porquinhos e o Lobo Uau, da Cia. de Teatro Dionísio (Porto Seguro - BA), voltou ao Centro de Cultura na programação da segunda edição do Festival Porto EnCena em 25 de março de 2026. A apresentação materializa uma releitura contemporânea do conto clássico infantil, incorporando elementos do cotidiano atual e promovendo uma atualização significativa da obra original.
Cerca de duzentas crianças, estudantes da rede municipal de ensino, iluminaram o teatro de forma especial, porque o olhar de descoberta dos pequenos transforma também o espaço. O som, o movimento, o cenário, a linguagem… tudo é remodulado para a experiência sensorial da infância.
Desde o início da peça, fica evidente que os efeitos de som e de luz são importantes, não só para a composição da ambientação, mas para construir a própria história. Há uma significativa sincronia entre as falas dos personagens, o momento da cena e os sons projetados, o que contribui para que as crianças compreendam o andamento das cenas e interajam com as falas e movimentos do elenco no espaço do teatro. Esses recursos são acionados nos momentos de trocas dos personagens e no uso dos objetos entre uma cena e outra, de forma a intensificar os sentidos nos momentos de tensão, suspense e humor. É isso que acontece quando o Lobo Uau tenta derrubar as casas com o sopro, a música e a iluminação interagem com os gestos e falas dos personagens para prender a atenção do público e instigar reações conforme os fatos se desenrolam.
Os personagens, os irmãos Bisteca, Feijoada, Costelinha e o Lobo Uau, estão envoltos em jogos de linguagens da fala, do gesto, da música para recompor o já conhecido enredo, agora entrecortado por fabulações do engano, dos artifícios da palavra, da fuga e da astúcia, gerando a confluência de tensão e humor que mobiliza reações animadas do público.
Sempre que o Lobo Uau entra em cena, há uma mudança perceptível nos recursos de ativação sensorial. A música fica mais tensa e a iluminação passa a explorar tons de vermelho, criando um clima de alerta. Esses elementos ajudam a construir a presença do personagem, que, mesmo dentro de uma proposta mais leve, carrega, ainda, a ideia de ameaça.
O Lobo Uau é uma ressignificação do “Lobo mau” realizada por meio do uso de diferentes disfarces, como agente comunitário, entregador de aplicativo e figura familiar. Tal recurso amplia o campo interpretativo do texto, permitindo a ativação de repertório da plateia e promovendo uma leitura crítica acerca das estratégias de engano presentes na sociedade contemporânea.
Nessas cenas, o intérprete do Lobo Uau toma a atenção do público e se torna o grande destaque do espetáculo. No momento em que ele desce do palco, a sua atuação mobiliza a plateia a interagir com os personagens, fazendo com que as crianças participem ativamente da peça, respondendo e reagindo às suas perguntas.
A dramaturgia, o texto que orienta as falas dos personagens e suas ações no palco, reserva atenção necessária aos jogos de palavras para explorar o sentido figurado da linguagem e ampliar ainda mais as ramificações da história em constante conexão com o público. A troca proposital de palavras ativa algumas figuras de linguagem muito próprias do teatro para crianças e da palhaçaria, como a paronomásia (o trocadilho), a troca de uma palavra esperada no contexto por outra de grafia e pronúncia semelhantes, mas com sentido bastante diferente, a exemplo de “primo de terceiro degrau” no lugar de “primo de terceiro grau”, “videogame pirado” no lugar de “videogame irado”, citando trechos da peça. Também há um deslocamento de sentido na inversão de posições quando se usa um boneco de um homem, “o humaninho”, como brinquedo do porquinho, ativando a identificação do público que se vê presente no jogo entre o real e o imaginário, ou o real imaginado. Por meio do jogo com as palavras e com a sonoridade, esses artifícios são facilmente percebidos pelo público, provocando o riso, a diversão, enquanto também amplia a consciência linguística das crianças no brincar com as palavras.
A cenografia é composta por poucos elementos, um painel com imagem de floresta e painéis menores representando os “chiqueirinhos” dos porquinhos. Os figurinos são de cores intensas e marcantes, com detalhes que destacam a personalidade de cada personagem.
Um recurso que chama bastante a atenção é a forma como os pensamentos dos personagens aparecem no palco. Em determinado momento, um personagem fica parado enquanto outros atores encenam aquilo que ele está pensando. Este recurso teatral, o “congelamento de cena” ou “quadro vivo”, permite que o público visualize algo que normalmente ficaria apenas no plano interno, quebrando um pouco a linearidade da cena e deixando a encenação mais interessante.
A direção da peça teatral consegue manter a fluidez em uma composição diversa que integra reflexões importantes para a sociedade a partir de situações simples, carregadas de humor. Temas como consumismo tecnológico aparecem quando há escolhas que envolvem coisas materiais e há também a discussão sobre autonomia, já que os personagens precisam aprender a fazer tarefas sozinhos, sem a interferência de adultos. A peça mobiliza, ainda, temas voltados para a promoção da saúde, como a prevenção da dengue, e para a responsabilidade ambiental, como a preservação da floresta, citando problemas atuais como queimadas e desmatamento.
O espetáculo envolve o público em uma experiência divertida, permeada por conexões inteligentes com referências de outras artes como a música, o mundo dos jogos (principalmente aqueles dos anos 1990) e o cinema. A peça promove entretenimento com reflexão social para as crianças e também para as suas famílias, fortalecendo a rede de produções de arte e de cultura na região de Porto Seguro.
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