
Um grupo de pesquisa formado por cinco pessoas resolveu escrever sobre a história do antigo campo de aviação do Arraial d’Ajuda, onde atualmente está o Parque Central. O trabalho foi iniciado em 2016 e concluído este ano. O resultado está no livro “Memórias Sobre o Campo de Aviação do Arraial d’Ajuda”, que conta a importância do campo de aviação desde sua inauguração, em 1939, até os dias atuais, e sua influência na formação populacional, econômica e social de Porto Seguro.
Os pesquisadores estão levantando apoio da comunidade para lançamento do livro, que será editado pela gráfica Pancrom, de São Paulo. A ideia de escrever o memorial surgiu durante um churrasco na casa do professor Tharles Souza Silva, graduado em História e mestre em História Regional e Local pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb), e doutorando em Estado e Sociedade pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Durante o encontro, a amiga Cintia Campeche, da associação Amigos do Arraial de N. Sra d’Ajuda, associação civil que cuida do Parque Central, sugeriu que fosse montado um projeto para escrever a história do campo, entrevistando moradores mais antigos.
Eles começaram tentando encontrar pessoas que pudessem contribuir com informações. Assim, foram chegando os outros escritores: Vinícius Parracho, que apresentou o amigo e sócio no escritório de advocacia, Rafael Tosati; e depois, Gabriel Moreira, estudante de graduação em História e Galilei Lemos Júnior, ex-aluno de Tharles. Segundo a obra, que contém informações históricas inéditas, o campo tem uma importância muito grande para os moradores do Arraial e faz parte do imaginário coletivo delas. O professor Tharles afirma que, embora sua criação tenha sido associada à Segunda Guerra Mundial, não há relação direta entre a inauguração do campo de aviação e esse fato histórico mundial.
Memória e emoção
“Foi uma coincidência. A criação do campo levou as pessoas fazerem essa associação, porque o Brasil acabou se envolvendo no conflito”, observa. Ele diz que as pessoas mais velhas se lembram do antigo hangar e contam que viram os últimos aviões que pousaram e decolaram ali. “Eram duas pistas. O campo tinha um formado de T, com uma pista pequena, de 800 m para emergência, e uma longa, com 1.200 m”, registra Tharles. Quase quatro décadas depois, o campo não preserva sua área original. Invasões tomaram um grande espaço, já que o local permaneceu inativo e sendo cobiçado pela sua localização estratégica. Atualmente, o Parque Central reúne posto de saúde, escolas, creche, quadras e o Cemitério São Benedito.
De acordo com o livro, o desenvolvimento urbano e econômico do Arraial e, por consequência, de Porto Seguro é atribuído à construção do campo. “Isso é uma realidade. Oportunidades de trabalho e turismo surgiram a partir daí, porque o campo facilitava a comunicação com outras localidades, favorecendo a integração com o restante do Brasil”, disse o professor. O campo fazia parte da rota do correio aéreo nacional, além de ser usado para transporte de pessoas para Salvador, Canavieiras e outras localidades, em aeronaves pequenas. Foi desativado em 1980, quando da inauguração do Aeroporto de Porto Seguro.
As entrevistas encontraram pessoas com idade entre 70 e 90 anos, testemunhas vivas que tiveram suas emoções trazidas à tona: “é um trabalho de memória e quando a gente começava a falar do campo, as lembranças começaram a aparecer e as pessoas se emocionavam e choravam. É uma carga muito grande”, conta Tharles.
Uma das entrevistadas, a idosa Maria Jorge, 95, conhecida como dona Miúda, afirma que se lembra dos pousos, do cotidiano, de aspectos econômicos, e ressalta o estado de pobreza de Porto Seguro e Arraial na época, uma comunidade que não ultrapassava 200 pessoas. A população vivia da pesca, das lavouras e da extração de madeiras, usando, comumente o escambo como estratégia de subsistência. As mulheres iam para as pedras mariscar e trocavam por farinha, açúcar e outros mantimentos. A circulação de dinheiro só veio após a chegada do campo de aviação, e com ele, toda a estrutura para receber, transportar e alimentar soldados, políticos e romeiros.
O livro
O livro tem cinco capítulos. O primeiro trata da inauguração do campo e sua importância dentro do desenvolvimento da aviação no Brasil e no mundo; o segundo, das memórias da Segunda Guerra Mundial no Extremo Sul da Bahia; o terceiro, do guarda-campo, uma atividade que se tornou oficial e referência de autoridade pública; o quarto relata o cotidiano do arraial após a inauguração do campo e sua desativação, até tornar-se Parque, em 1994; e o último fala dos projetos futuros para o campo na voz da comunidade.
Foram citados importantes nomes, como os de soldados que vieram aqui durante a guerra, do brigadeiro Eduardo Gomes, uma das pessoas mais envolvidas na estratégia de defesa do Nordeste brasileiro no período, o influente jornalista Assis Chateaubriand, que foi a pessoa responsável por montar o projeto de inauguração do campo, conhecido como A Revoada, com a presença de 22 aeronaves. “Além de favorecer o desenvolvimento das comunicações de forma geral, principalmente da mídia escrita no Brasil, Chateaubriand era um entusiasta da aviação e o segundo brasileiro a voar - afirma o professor Tharles – chegando a financiar a construção de campos de pousos em várias partes do Brasil.”
O livro contém fotos da época, em sua grade parte, cedidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), além de reportagens, entrevistas e documentos valiosos para a história regional. Não tem uma unidade de estilo, segundo o professor, preservando apenas uma preocupação: uma linguagem mais clara possível, tornando-se acessível a qualquer leitor. “Uma das coisas mais bacanas é que permaneceu a característica de cada um”.
O orçamento para publicação é de R$ 41 mil para a tiragem de 1.000 exemplares. O grupo de pesquisa busca arrecadação por meio de cotas de patrocínio, com vistas à qualidade na impressão e disponibilização de exemplares para as escolas, bibliotecas, institutos, associações e órgãos públicos locais. Não há finalidade lucrativa. Até o fechamento desta edição, havia sido arrecadado um valor de R$ 18.500, entre doações já realizadas e promessas de contribuição.
Novas contribuições podem ser feitas diretamente na conta do organizador da obra, o professor Tharles Silva, no Banco do Brasil, Agência 0792-7, Conta Corrente 42665-2, CPF nº: 037.831.075-55. Todos os valores serão apresentados em prestação de contas no lançamento do livro, e publicados na internet.
Legendas
Aviões no campo de pouso doArraial d´Ajuda, no dia da inauguração, em 1939
O grupo de pesquisa com Cintia Campeche e um entrevistado: Galileu Lemos Jr., Gabriel Moreira, Rafael Tosati, seu Zé Pio, Tharles S. Silva e Vinicius Parracho
