Deus é tudo: o bate-papo que rendeu

Antonio Tamarri 

Entre todas as dificuldades que a pandemia nos criou, propiciou, todavia, uma vantagem naqueles que não dependem de sair de casa para se divertir. “Fica em casa”, “evita as aglomerações, usa a “masquerinha” continuam sendo as orientações, além da vacina. Tive diversas ocasiões de fazer conversas legais com vizinhos e amigos, quando, com um cafezinho quente na mesa, a gente não olhava o relógio e deixava o papo rolar.

_ Esta pandemia, que desgraça! Quando vai acabar?

_ Se é que acaba, pois parece que, mesmo com todo mundo vacinado, o vírus continua vivo, podendo ainda atacar. Deus não deixa.

_ Pára aí! Não bota culpa em Deus...

_ Deus é tudo, rapaz, pode tudo e, se a gente criar juízo...

_ Escuta. Se Deus é tudo, também tudo é Deus...

_ Não...Tudo é Deus...Com tantas misérias acontecendo!

_ Lembra? Nos primeiros anos da escola, quando os professores queriam nos ensinar a matemática e diziam que “dois mais três faziam cinco” e depois diziam que “três mais dois faziam cinco”? Se Deus é tudo, também tudo é Deus. Fica difícil acreditar porque o tudo, quer dizer o mundo, não é tratado como Deus. Pior. O mundo, quer dizer a Terra, o nosso planeta está se tornando o lixeiro dos homens e, veja, amigão: aqui  pode estar a origem dos vírus.    

_ Não confunda as coisas.

_ Não estou confundindo. Pandemia, significa epidemia generalizada. Veja aí: o ar está poluído, as águas dos rios e até dos oceanos cheias de plástico, a terra está sendo ou queimada ou explorada; a televisão faz propaganda das três safras que se consegue tirar da terra super molhada, a custo de adubos químicos e irrigação exagerada; a gente come produtos manipulados, corre feito doido para chegar no trabalho e voltar para casa...Tão pequena e apertada que dá vontade de sair logo...

- Chega, estou ficando nervoso!

_ Fica não amigo. Pensa que nos anos noventa, quando cheguei pela primeira vez em Porto Seguro, me chamou atenção esta propaganda, num pôster muito grande à beira da BR: "Virasol - Fazer nada e depois descansar"

_ Que é que isto tem a ver?

_ Tem a ver que esta cabana, na época, a mais badalada, o mar levou... Quando as demais cabanas, tipo Tôa Tôa, Axé Moi, construídas demais perto do mar, podem ter o mesmo fim. É um absurdo que Porto Seguro, com noventa quilômetros de praias maravilhosas tenha, ainda, construções irregulares, com aglomerações espantosas, anti-higiênicas, poluídas.

O mundo é Deus, o nosso Deus. Este foi criado para ser um jardim e não um lixão. Para ser uma harmonia, um canto de alegria; aonde não devem viver os chacais, que até na compra das vacinas querem ter lucros e propinas, que não respeitam nem a ciência, nem a política, nem as leis, nem as normas, nem as ordens e os conselhos... O pior vírus é a maldade!


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia - Ilustração: GreenMe Brasil

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Antonio Tamarri

É muito comum ouvir estas palavras. Quem as pronuncia passa a impressão de ser pessoa determinada e segura. Mas, pensando bem, esta duplicidade não é tão positiva assim, sobretudo nestes tempos de pandemia. Tempo em que, para se livrar do vírus, é necessária a colaboração de todos.

Neste caso, esta duplicidade torna-se nociva. Por exemplo, quando uma pessoa, por motivos religiosos ou de saúde, resolve tomar álcool nenhum, renunciando aos benefícios desta bebida que, quando bebida ‘com juíza’, só faz bem.

O mesmo pode ser dito de todas as comidas. Exagero de açucares, carnes gordas, café, para não falar das frituras, etc... fazem mal de verdade. Mas uma abstenção total também faz mal. “No meio se encontra a virtude”, dizem os sábios e nada pode substituir o equilíbrio.

“Memento mori”

Vale a pena recorrer à historia e à sabedoria dos antigos romanos. Era esta a frase que os palhaços do imperador diziam até durante os desfiles dos triunfos, quando o chefe vencedor voltava para Roma recebendo a maior gloria. “Lembre-se de que você é mortal”, em tradução livre.

Na Igreja Católica, quando a liturgia era ainda em latim, no começo da quaresma, na celebração das cinzas, as palavras que o celebrante dizia eram: “memento homem quia pulvis es et in pulverem reverteris”. Lembre-se que você é pó e voltará a ser pó.

Se a pandemia nos ensinar a ser mais sóbrios, autocontrolados, calmos... tiraremos algo positivo entre a tragédia de tantas vidas ceifadas. A vida sempre é um dom, pois ninguém pediu para nascer. E hoje, mais do que nunca, vale a frase que sempre ouvimos: “muita calma nesta hora”.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia - Ilustração: GreenMe Brasil

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Sinfonia do silêncio

Existem muitas orquestras tocando no silêncio maravilhosas sinfonias. No começo da noite, os pássaros se despedem com mil e um cantos e passam às corujinhas a tarefa de animar a escuridão, justamente com as notas da brisa do mar, o leve ondular das folhas caindo; para não falar dos namoros dos gatos e os latidos dos cachorros. A gente exclui os “barulhos” das orquestras, das baladas que muitas vezes não têm nada de maravilhoso para os ouvidos humanos.

Também o nosso corpo tem uma orquestra. Alegrias, tensões, emoções, fadigas, esperanças, dores, frustrações, tristezas. Tudo o que sentimos e que, talvez, atribuímos à alma, passam pelo nosso corpo e não adianta abafar estas sensações com remédios ou exagero de comida, super ativismo ou ócio.

Nada como num tempo tão delicado como este, em que vivemos os estragos de uma pandemia tão angustiante, é mais importante que ouvir o nosso corpo, prestar atenção ao que vemos, ao que ouvimos, ao que respiramos, ao que acontece e que até agora deixamos acontecer, sequer desconfiando que é o nosso entorno a causa da pandemia, desta infecção misteriosa e letal que nos tira a paz e provoca a morte.

O sonho de todos é tornar à vida “normal”

Que normalidade é esta que nos obriga a viver do jeito em vivemos? O nosso corpo grita por descanso, trabalho sadio, convivência fraterna, respeito, confiança e a gente está vendo que tem pessoas até aproveitando da pandemia para roubar, enganar, praticar crimes. Fala-se tanto em ética, honestidade, ajuda recíproca. Entretanto, sabemos que o vírus se alastra sempre mais, também, porque existem pessoas que se recusam a usar a simples máscara para não se contaminar ou infectar os outros.

Que “normalidade” é essa, quando vivemos em cidades cheias de lixo, casas sem ventilação, tráfego impossível, trabalho escravo? O ar que respiramos, a água que bebemos, a comida que compramos... Quase tudo nos dá a impressão de estar contaminado não apenas pelo coronavírus, mas pelo descaso da falta de cura e atenção. É neste contexto que o vírus se alastra, é por causa da surdez com que atendemos aos chamados da natureza, aos apelos de quem não consegue ter o indispensável para viver.

Não pode ser chamada normal a sociedade e o planeta que estamos sustentando. O vírus é apenas um aspecto, uma faceta do problema. O vírus encontra corpos e mentes ausentes, cegos frente aos problemas globais e urbanos; nesta situação ele “deita e rola” e, infelizmente, não será apenas a vacina a nos salvar.

Tornar-se-á imprescindível escutar a orquestra do nosso corpo, do que os olhos veem, os ouvidos escutam, os sentidos percebem. Ele toca sempre a sinfonia do silêncio, da calma, do respeito, da paciência, da natureza, da simplicidade. E tampar os sentidos para se livrar da “cacofonia” dos políticos corruptos, dos comerciantes mentirosos, dos religiosos alienados dos problemas da terra; se livrar das manias de comprar, gastar, aparecer e voltar à vida simples.

Só nos livraremos do vírus quando revisarmos o nosso modo de viver, de tratar o nosso corpo e o corpo dos outros; quando assumirmos a tarefa cívica de viver de forma mais sadia.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia


Publicado da edição 430 do Jornal do Sol


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Aproveitar das adversidades é uma virtude importante, sobretudo quando estas são de verdade desafiadoras como está sendo agora a Covid-19. Não adianta se queixar, ou reclamar. O jeito é se conformar e enfrentar os desafios que esta pandemia nos apresenta.

Um dos desafios mais importantes e, sem dúvida, muito oportuno para ser considerado, é o enfrentamento da pandemia.  Trata-se da oportunidade para desconstruir o inútil, o supérfluo e, de especial modo, o que é prejudicial. Não se trata de demolir, acabar, destruir, e sim, de tirar o que não é essencial para privilegiar o que realmente importa. Vamos pensar em alguns exemplos:

Desconstruir o costume de sair de casa

Um dos grandes riscos de se contaminar são “os passeios” nos supermercados, lojas, shopping, bares, restaurantes, feiras. Quantas destas atividades podem ser realizadas em casa, como preparar a comida, tomar uma cerveja ou drink com a própria família ou poucos vizinhos ou parentes. Basta se abastecer uma vez num grande centro comercial e depois utilizar estas compras.

Desconstruir o lazer em praias lotadas

Tem tantos recantos reservados perto do mar, ou trilhas nas matas, caminhadas em ciclovias pouco frequentadas, parques espaçosos. Sem desconsiderar a possibilidade de fazer exercícios físicos na própria casa, ou terraço e quintal.

Desconstruir o que caiu em desuso nas igrejas, armazém das prefeituras, depósitos semiabandonados

Aqui poderíamos ter muitas vantagens tais como aproveitar as pessoas dispostas a fazer este trabalho, vender o que for possível, abrigar nos espaços os sem teto ou mendigos.

Desconstruir o péssimo costume de apelar por Deus

Sabemos que a expressão “se Deus quiser” soa blasfêmia, pois Deus não pode ser usado nem como médico ou remédio, tampouco como responsável ou libertador da pandemia. Este uso constante de usar o nome de Deus não pode ser considerado sinal de fé, pois fere o segundo mandamento, banaliza a palavra que deve sempre ser usada com respeito reverência, mesmo nas pregações e cerimônias sagradas.

Deus sempre ajuda, mas não pode substituir as recomendações dos médicos e cientistas. Quem desconsidera as ordens dos especialistas deve ser considerado irresponsável a ser, sem demora, desconstruído, afastado e até responsabilizado pelas inúmeras mortes que a pandemia está gerando.

O convite a desconstruir o supérfluo vale também no que diz respeito às nossas manias, costumes exagerados, tradições esquisitas; devemos “aproveitar” a pandemia para nos purificar voltando a uma vida e costumes mais naturais, simples e comunitários.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

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Nesta pandemia, tivemos muitas restrições à liberdade habitual. Para evitar que o vírus se empalhasse por demais, fomos obrigados a mudar de hábitos. Teve quem não gostou e ficou apelando para a Constituição. Pensando bem, ninguém é impedido de praticar o direito de ir e vir em si, mas poderá ser impedido de fazer algo, pelas circunstâncias de: aonde estou indo, o que pretendo fazer, com quem vou estar, quando irei sair de casa, como penso me comportar.

O lugar da minha ação é determinante. Não posso entrar em hospital ou lugar proibido, para evitar possível contaminação. Até a visita na casa de um amigo contaminado torna-se perigosa; sempre deve-se evitar de ser atingido pelo vírus. Mas, claro, se torna o motivo da proibição estar presente num evento, ao saber que será uma festa clandestina, sem as medidas de precaução, de número dos presentes.

O que irei fazer é item fundamental. Se for para roubar ou praticar violências de outros torcedores, ou manifestações contra a democracia, contra a paz alheia, proibido aqui não é “ir e vir”, e sim, ações que planejo fazer, o material que carrego, as intenções que tenho.

A companhia da minha viagem é muito importante. Os amigos das baladas ou das bebedeiras ou das provocações, antes de depois de um jogo ou manifestação. Até atos religiosos devem ser evitados, quando se apresentam como desafios às normas de higiene e de prevenção. Neste caso não é proibida a reza, e sim, o perigo de contaminação, que pode até se tornar ato de desafio à ajuda de Deus. Neste caso, deve ser duplamente proibido: pelo risco de contaminação e pelo exagero na fé. Substituir Deus e santos, aos médicos, às normas de higiene, ao cuidado com a saúde não tem nada de edificante. Entregar a Deus a tarefa de nos proteger não é ato de fé, mas erro de função, fuga de responsabilidade, confusão de tarefas.

O tempo. Neste momento de pandemia generalizada, não é possível não saber o que está proibido. A lei contra a poluição sonora vigora sempre. Em tempo de pandemia, o som a volumes exagerados são duplamente graves porque na vizinhança podem estar doentes, pessoas que passam pela dor da perda de um parente e as músicas, às vezes com tom e textos arbitrários, até com sentido duplo. Representam mesmo a falta de sensibilidade e respeito.

No como.  Tem gente que, na verdade, ofende o direito do ir e vir pela maneira de como transgride a lei. Não usar a máscara em lugar público, além de mau exemplo representa, um perigo para as demais pessoas. Entre as tantas recomendações, para se livrar da pandemia é justamente o uso da máscara; simples e barato, este pequeno instrumento, representa, segundo os especialistas, a prevenção mais importante. Inclusive, se nas aglomerações fosse usado por todos, a infecção poderia ser eliminada.

Ir e vir é um direito, mas quando não é exercido com as devidas normas, torna-se atentado contra a saúde publica. Rir destas normas é ato acintoso, abuso de confiança; no caso de ser praticado por pessoas que tem autoridade, torna-se mau exemplo, incentivo à desobediência, desrespeito dos médicos e das normas. Infelizmente numa sociedade que preza a democracia, torna-se difícil punir estes verdadeiros criminosos, mas a história irá julgar estas atitudes. Pena que a pagar o preço não sejam estes criminosos, mas os pobres, porque não tem os meios para se tratar e escapar da morte.

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