Porto Seguro - Bahia - Brasil - Quinta-feira, 20 de novembro de 2008.
 






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Terra à vista – enfim um Porto Seguro

Era o início do reinado de D. Manoel I, entre 9 de março e 22 de Abril de 1500, quando, apoiados na letra do Tratado de Tordesilhas, cerca de mil e quinhentos portugueses atravessaram o Atlântico, embarcados em 9 naus, três caravelas e uma pequena nave de mantimentos. Era a Segunda armada da Índia, a maior que alguma vez saíra de Portugal a caminho do mundo. Havia zarpado do Tejo por entre exclamações e lágrimas com 13 navios, mas a 23 de março, nas águas calmas, mas enevoadas de Cabo Verde uma das naus desapareceu sem deixar rastro.

Em 22 de abril de 1500, depois de 42 dias de viagens, a frota de Pedro Álvares Cabral vislumbrava terra – mais com alívio e prazer do que com surpresa ou espanto. Segundo o testemunho do escrivão Pero Vaz de Caminha, naquela tarde de 22 de Abril “os nossos toparam um grande monte, mui alto e redondo ao qual monte alto o capitão pôs o nome Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz.” Pedro Álvares Cabral, o comandante, mandou fundear a armada a cerca de 19 milhas de terra, um pouco a norte do parque de Monte Pascoal, entre a pontas de Itaquena e Itapiroca, em frente à Barra do Rio dos Frades.

No dia seguinte, 23 de abril, iniciaram-se as sondagens do leito marinho e alguns navios ancoraram em frente à grandiosa Mata Atlântica. Muito provavelmente o capitão Nicolau Coelho terá sido o primeiro português a pôr pé no novo continente e a se comunicar com um pequeno grupo de índios tupiniquins que apareceu na praia.

Nos nove dias que se seguiram, nas enseadas generosas da Bahia, os 12 navios da maior armada já enviada às Índias pela rota descoberta por Vasco da Gama permaneceriam reconhecendo a nova terra e seus habitantes. O primeiro contato, amistoso com os demais deu-se já na quinta-feira, 23 de abril. O capitão Nicolau Coelho, veterano das Índias e companheiro de Gama, foi à terra, em um batel, e deparou com 18 homens “pardos, nus, com arcos e setas nas mãos”. Coelho deu-lhes um gorro vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto. Em troca, recebeu um cocar de plumas e um colar de contas brancas. O Brasil, batizado Ilha de Vera Cruz, entrava, naquele instante, no curso da História.

Foi justamente no município de Cabrália, na Coroa Vermelha, que Frei Henrique de Coimbra celebrou a primeira missa, que continua a ser orgulhosamente relembrada por brancos e índios em cada ano que passa.

Carta de Caminha: certidão de nascimento do Brasil

Por mais de três séculos, o principal e mais esplendoroso documento da descoberta do Brasil permaneceu desconhecido – “praticamente sequestrado”, de acordo com o historiador português Jaime Cortesão – no arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa. Foi redescoberto em fevereiro de 1773 pelo guarda-mor do arquivo, José Seabra da Silva.
Ainda assim, quase meio século se passaria antes da carta de Pero Vaz de Caminha ser publicada pela primeira vez, pelo padre Manuel Aires do Casal, em sua “Corografia Brasílica”, editada em 1817. Somente em 1900, porém, quando da comemoração do quarto centenário do descobrimento do Brasil, a carta voltaria a receber a atenção dos eruditos.

Oito anos mais tarde, Capistrano de Abreu lançou seu estudo “Vaz de Caminha e sua Carta”. Só então se revelou plenamente a agudeza das observações, a fragrância dos retratos, a vivacidade descritiva, precisão etnológica e a acuidade histórica daquela que pode ser considerada a autêntica certidão de nascimento do Brasil.No instante em que Caminha escrevia a sua carta em Porto Seguro, havia mais de meio século que os escrivães portugueses exercitavam e afinavam a arte de registrar os fatos de maior revelo ocorrido em suas viagens marítimas.

Praticamente nenhum desses relatos, no entanto, foi redigido por escrivães de oficio. Caminha seguia na frota de Cabral com a missão de tornar-se o escrivão da futura feitoria de Calicute. Mas era mais do que isso: era escritor feito, homem de letras, requintado e perspicaz, em pleno domínio de sua arte. O texto que caminha legou à posteridade não apenas captura, com minúcia e fluência, o alvorecer de uma nação como constitui sua primeira obra-prima.

Ainda assim, a carta do mestre João – físico-mor da armada de Cabral – e a chamada “Relação do Piloto Anônimo” (publicada já em 1507) ficaram, de início, muito mais famosas que o relato de Caminha. Todos os documentos relativos à primeira viagem ao Brasil submergiram, porém, no mesmo ostracismo ao qual Cabral foi relegado, depois de se recusar a assumir a subchefia de uma nova esquadra que seria enviada para Índia. Após seu desempenho na viagem de 1500, ele se julgava em condições de ser comandante de qualquer missão.

O terremoto que em 1755 abalou Lisboa também colaborou para o sumiço momentâneo da documentação. Por caminhos ainda mais misteriosos, a Carta de Pero Vaz chegaria até o Arquivo da Real Marinha do Rio de Janeiro, provavelmente quando da vinda da família real para o Brasil, em 1808. Dez anos mais tarde, seria enfim publicada pelo padre Aires de Casal.

Pero Vaz de Caminha nasceu na cidade de Porto na 5ª década do século 15. Filho de família relativamente nobre, fora cavaleiro das casas de D. Afonso 5º, de D. João 2º e de D. Manuel. Tinha cerca de 50 anos quando se juntou à frota de Cabral. A carta que o imortalizou viria a ser um de seus últimos atos: quando a feitoria lusitana em Calicute foi atacada, em 16 de dezembro de 1500, entre os mortos em combate estava o profético cronista do nascimento do Brasil.

A descoberta: acaso ou intenção?

O descobrimento oficial do país está registrado com minúcia. Poucas são as nações que possuem uma “certidão de nascimento” tão precisa e fluente quanto a carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, Dom Manuel, relatando o “achamento” da nova terra. Ainda assim, uma dúvida paira sobre o amplo desvio de rota que conduziu a armada de Cabral muito mais para oeste do que o necessário para chegar à Índia.

Teria sido o descobrimento do Brasil um mero acaso? É provável que a questão jamais venha a ser esclarecida. No entanto a assinatura do Tratado de Tordesilhas, que, seis anos antes, dera a Portugal a posse das terras que ficassem a 370 léguas (em torno de 2.000 quilômetros) a oeste de Cabo Verde, o conhecimento preciso das correntes e das rotas, as condições climáticas durante a viagem e a alta probabilidade de que o país já tivesse sido avistado anteriormente parecem ser a garantia de que o desembarque, naquela manhã de abril de 1500, foi mera formalidade: Cabral poderia estar apenas tomando posse de uma terra que os portugueses já conheciam, embora superficialmente. Uma terra pela qual ainda demorariam cerca de meio século para se interessarem de fato.

Porto Seguro vira capitania hereditária

Na posse da nova terra, foi criada uma feitoria, que servia de ponto de aguada para a esquadra portuguesa. Em 1534, com a divisão administrativa do Brasil em capitanias hereditárias, Porto Seguro passou a ser sede da Capitania de Porto Seguro e doada a Pero do Campo Tourinho por Carta Régia de 27/05/1534 (que criou também o município) e por Carta Foral de 23/09/1534.

Com a chegada dos portugueses, iniciou-se a história escrita do Brasil e a mistura de culturas e raças. O Alvará Régio de 20/10/1795 criou a sede com a invocação de Nossa Senhora da Pena. Foi elevada à categoria de cidade através do Ato Estadual de 30/06/1891, pelo então presidente da província da Bahia, José Gonçalves. Teve como seu primeiro intendente ou conselheiro municipal o médico e professor Antônio Ricaldi

Porto Seguro foi sede de uma das 15 capitanias hereditárias com que o rei D. João III mandou dividir o imenso território do Brasil, numa incipiente tentativa de promover a sua colonização e administração. Curiosamente, a atual capital do Brasil, traçada por Lúcio Costa e emoldurada por fabulosos edifícios de Oscar Niemeyer, está dentro dos limites da então capitania de Pêro de Campo Tourinho, que aqui se instalou entre 1535 e 1547 com a família e mais umas centenas de portugueses. Desse tempo Porto Seguro guarda a igreja da Misericórdia, o antigo Paço Municipal e a igreja da Pena, cuja tradição faz remontar a 1503 uma imagem aí guardada de São Francisco de Assis.

Os Tupiniquins

Ao longo dos dez dias que passou no Brasil, a armada de Cabral tomou contato com cerca de 500 nativos. Eram, se saberia depois, tupiniquins – uma das tribos do grupo tupi-guarani que, no início do século XVI, ocupava quase todo o litoral do Brasil. Os tupis-guaranis tinham chegado à região numa série de migrações de fundo religioso, no começo da Era Cristã. Os tupiniquins viviam no sul da Bahia e nas cercanias de Santos e Bertioga (SP). Eram uns 85 mil. Por volta de 1530, uniram-se aos portugueses na guerra contra os tupinambás-tamoios, aliados dos franceses. Foi uma aliança inútil: em 1570 já estavam praticamente extintos, massacrados por Mem de Sá, terceiro governador geral do Brasil.

Referência do passado e estímulo ao futuro

Em Porto Seguro, que no seu bem conservado Centro Histórico guarda o padrão ali colocado em 1503 por Gonçalo Coelho ou em 1526 por Cristóvão Jacques (dados históricos divergem sobre esse fato), que fez o primeiro reconhecimento do Brasil, os mais afoitos e curiosos da história podem alugar um barco e, munidos da Carta de Pero Vaz de Caminha, recuperar hoje, com os escritos do escrivão Caminha, uma visão muito próxima daquela que tiveram os navegadores lusos em abril de 1500. “No sábado de manhã o capitão mandou fazer vela e fomos demandar a entrada a qual era muito larga e alta, a mesma ancoragem é dentro tão formosa e tão segura que podem ficar dentro dela mais de cem navios e naus.”

Hoje, na parte baixa da cidade, está o pulso de Porto Seguro. Nas suas praças e avenidas multiplicam-se os bares, as lojas e os restaurantes. No mar a sedução dos passeios, na Passarela do Álcool, a memória dos índios bebedores de cachaça, emoldurada por casario antigo de cara lavada numa euforia de cores que transmitem alegria a qualquer mortal. Em frente às ruínas do antigo fortim ergue-se as estátua de Pedro Álvares Cabral, rodeado de treze estrelas em mármore com o nome dos capitães da frota.

“Esta terra, senhor (...) traz ao longo do mar, em algumas partes, grandes barreiras, algumas vermelhas, algumas brancas e a terra por cima é toda praia rasa, muito plana e bem formosa.” Bastará acrescentar, para atualizar a Carta de Caminha que há “nessa terra de muitos bons ares” várias vilas com casas baixas de telhados vermelhos, onde vive um povo simpático e acolhedor que fala a língua portuguesa e guarda a memória dos marinheiros de Cabral como referência do seu passado e estímulo ao seu futuro.

Cronograma da Descoberta

Quarta-feira, 22 de abril de 1500 – No fim da tarde, a frota de Cabral avistou o cume do Monte Pascoal. Ao crepúsculo, a 24 quilômetros da praia e a uma profundidade de 34 metros, os navios lançaram âncoras.

Quinta-feira, 23 de abril de 1500 – Às dez horas da manhã, os navios ancoraram defronte da foz do rio Caí. Nicolau Coelho, veterano das Índias, foi até a praia, num bote, e lá fez o primeiro contato com 18 nativos.

Sexta-feira, 24 de abril de 1500 – A armada levantou âncora e partiu em busca de melhor porto. Encontraram-no seguro, 70 quilômetros ao norte.Ali, dois nativos subiram a bordo. Pouco falaram e logo dormiram no tombadilho da nave de Cabral.

Sábado, 25 de abril de 1500 – Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho e Pero Vaz de Caminha foram à praia e encontraram cerca de 200 índios.Houve troca de presentes de pouco valor.

Domingo, 26 de abril de 1500 – Frei Henrique, franciscano que seria inquisidor, rezou a primeira missa em solo brasileiro, na Coroa Vermelha. Houve grande confraternização entre nativos e estrangeiros ao longo de todo o domingo.

Segunda-feira, 27 de abril de 1500 – Diogo Dias e dois degredados visitaram a aldeia dos tupininquins, erguida a uns dez quilômetros da praia. Não lhes foi permitido dormir lá.

Terça-feira, 28 de abril de 1500 – Os portugueses fizeram lenha, lavaram roupa e prepararam uma grande cruz.

Quarta-feira, 29 de abril de 1500 – Ao longo de todo dia, o navio dos mantimentos, que seria enviado de volta a Portugal, foi esvaziado de sua carga.

Quinta-feira, 30 de abril de 1500 – Cabral e os capitães desembarcaram. Na praia, havia uns 400 nativos, com os quais eles passaram o dia dançando e cantando.

Sexta-feira, 1º de maio de 1500 – A tripulação deixou os navios e seguiu procissão para o erguimento da cruz.

Sábado, 2 de maio de 1500 – A esquadra partiu para Calicute, o navio dos mantimentos foi para Portugal. Dois grumetes desertaram a nau capitânia. Na praia, aos prantos foram deixados dois degredados.

Diário de Bordo
Data de partida: 09 de março de 1500.
Local: do porto no rio Tejo, na praia do Restelo, em Lisboa.
Números de embarcações: 10 naus (cerca de 500 toneladas cada) e três caravelas.
Tripulação: aproximadamente 1.500 homens, entre os quais 1.200 homens de armas, pilotos portugueses, árabes e indianos, intérpretes, degredados, marujos, grumetes, além de oito frades e oito clérigos franciscanos.
Tripulantes mais conhecidos: Bartolomeu Dias (o primeiro a dobrar o Cabo das Tormentas), seu irmão Diogo (escrivão da armada de Vasco da Gama), Nicolau Coelho (um dos pilotos de Gama e personagem dos “Lusíadas”), Duarte Pacheco (autor do célebre guia de navegação “Esmeraldo de Situ Orbe”).
Itinerário da ida: Lisboa – Ilhas Canárias (14/03/1500) – Cabo Verde (22/03/1500) – Porto Seguro (22/04/1500) – Cabo das Tormentas (24/05/1500) – Sofala, em Moçambique (16/06/1500) – Melinde, Quênia (06/07/1500) – Goa, Índia (22/08/1500) – Calicute, Índia (13/09/1500).
Itinerário de volta: Cananor, Índia (16/01/1501) – Moçambique (12/02/1501) – Cabo das Tormentas (19/04/1501) – Cabo Verde (15/07/1501).
Data de regresso: 23 de julho de 1501, novamente na praia do Restelo, em Lisboa.
Duração da viagem: 500 dias.
Navios restantes: seis.
Sobreviventes:
em torno de 500 homens.


































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