Porto Seguro - Bahia - Brasil - Quinta-feira, 20 de novembro de 2008.
 

2008







Opinião
 
Local
 
Turismo
 
Memória
 
Quem Somos
Santo André: um mergulho junto à natureza intocada

A vila de Santo André, bairro de Santa Cruz Cabrália é um lugar curioso. Favorecida pela sorte, por ser levemente afastada do turismo de massa - dez minutos de balsa + 20 minutos de carro –, a pequena Vila fica a uma distância de apenas dezoito quilômetros do aeroporto internacional da Costa do Descobrimento. Chega a ser inacreditável que esse povoado, mesmo próximo de endereços badalados como Trancoso e Arraial d’ Ajuda, consiga se manter inalterado, preservado, com poucos habitantes, mantendo ainda hoje o charme que essas localidades tinham há trinta anos.

Soma-se a isso o fato de estar bem no meio da área de proteção ambiental (APA) de Santo Antônio, que garante a preservação de seu vasto patrimônio natural: Mata Atlântica, restingas, várzeas, brejos, mussunungas, manguezais e recifes de corais. Por tudo isto, a vila de Santo André é um destino imperdível, onde em tempos idos, viviam os Tupinambás - índios místicos, amantes da natureza.

Há cerca de 100 anos o lugar era quase somente mata, com muitas jaqueiras, rios cristalinos e peixes em abundância. O gosto dos moradores pela boa prosa - que vem desde aquela época - ainda hoje reúne a comunidade para a contação de “causos”. Segundo os antigos, a iniciação de Pajés era feita através da música, já que os Tupinambás acreditavam que o divino, a força da natureza, falava aos homens através dessa arte. Mantidos na floresta em completo isolamento aqueles que disputavam a liderança da tribo somente retornavam à aldeia depois de compor canções. Era escolhido o autor da música mais bela, aquela que tocasse mais fundo o coração de seu povo.

Segundo a moradora D. Inácia, depois de longo período com cerca de oito casas (de taipa, piso de barro, fogões à lenha, cobertas por sapé e iluminadas por candeeiros), lá pelos anos 50 começaram a chegar novas famílias. Desde essa época, são as festas que animam o povoado, unindo sagrado e profano, como o “caruru” em homenagem a São Cosme e São Damião comemorado todos os anos em 27 de setembro.

Mais e mais “forasteiros” foram chegando como Guylise, da Ilha de Seycheles, que nos anos 80 realizava maravilhosas festas na praia de Santo André como oferenda à Yemanjá. Naquele tempo o espírito de solidariedade unia o “Batalhão”, espécie de mutirão, onde todos ajudavam na construção das casas. Saudoso, o sanfoneiro Valdevino - que junto de outros moradores criou o primeiro bloco carnavalesco - relembra: “A gente se unia, preparava uma feijoada e caía pra dentro do serviço! Só ia embora quando acabava o trabalho. Aí era hora do banho e de se preparar para o baile”. Havia muitos eventos, como os de São João, São Pedro, Boi Duro e dos santos Crispim e Crispiano. A festa do Caruru, as receitas, os valores comunitários, a cultura e o espírito de solidariedade eram passados de pai para filho.

Mundo do sossego

Situada entre uma faixa de terra que se estende entre a foz do rio João de Tiba e o mar, a vila é perfeita para quem procura natureza e tranqüilidade, oferecendo convidativos passeios: pedalar pela região, praticar windsurf, cavalgar, navegar pelos rios em meio à mata ou pela costa que leva aos recifes de Araripe, Coroa Alta ou às dunas - que surgem inesperadas no mar. Canoa, caiaque, saveiro ou lancha: a escolha é sua. As longas e magníficas praias com redes estendidas entre os coqueiros fazem parte da realidade desta aventura no mundo do sossego.

A estrutura hoteleira de Santo André é boa e suficiente para resolver sem problemas a sobre-população, bastante comum na alta estação: um Resort com 120 apartamentos e estrutura invejável (Costa Brasilis Resort), um excelente beautyfarm (Ruby Spa) e pousadas de variados padrões: da requintadíssima Pousada do Marlin à descontraída Victor Hugo. Existem também acomodações razoáveis e mais baratas.

Na culinária, ecletismo total com opções como Nouvelle Cousine, no restaurante Casa Praia, elegância no tradicional Ilha (Costa Brasilis Resort) e tempero regional no Gaivota e Orquídea, que oferece acarajés incomparáveis. Há ainda um número razoável de pequenos e simples restaurantes caseiros.

Passeios marinhos a poucas milhas, como o avistamento das baleias Jubarte, Orcas e de outras espécies, no período de junho a setembro, merecem ser destacados. De novembro a abril, pesca ao Marlin em alto mar - que naturalmente depois de marcado e fotografado é devolvido às profundezas azuis do oceano do mundialmente famoso banco Royal Charlotte. Descidas em profundidades até os enormes fungos de pedra que brotam na plataforma continental em frente à costa são possíveis aos mergulhadores mais experientes.

Licores e doces elaborados com matérias primas naturais, de cultivos orgânicos fazem parte do artesanato de Santo André que também oferece aos visitantes ateliês de papel artesanal, de reciclados de cristal, de trabalhos em renda, fuxicos, entalhados em madeira, luminárias, bijuterias, cerâmicas, batiques e muitas outras curiosidades como a produção caseira de azeite de dendê, óleo de coco e doce de caju.

Vale também uma “esticada” até à aldeia da tribo Pataxó na reserva de Coroa Vermelha, há 12 quilômetros de Santo André. Hoje com cerca de oitocentos moradores, a Vila rememora o passado para construir seus sonhos naquilo que lhe é verdadeiro e precioso: conciliar desenvolvimento sustentável com proteção à natureza.

Conscientes, os moradores começam a resgatar sua história, suas tradições culturais e sua religiosidade para transmitir os valores herdados dos ancestrais aos mais jovens e a quem vem de fora. O extremo sossego desse povoado de história rica, cultura peculiar, população alegre e hospitaleira, faz da Vila de Santo André única, um lugar quase irreal.


Fonte: Lola Carolina Franca Pinto