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Porto Seguro - Bahia - Brasil - Sexta-feira, 9 de janeiro de 2009. |
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Entrevista
Caetano Veloso |
Por Hilda Rodrigues
- Com uma obra tão vasta, como você situa
o novo disco “CÊ” na sua carreira, um
disco que você mesmo já disse que é
simples? O que ele tem de interessante e surpreendente para
você e para o público?
- Para o público eu não sei dizer direito,
mas para mim é um disco liberador e estimulante,
porque é realmente muito direto, simples, e ao mesmo
tempo rico em sonoridade e idéias.
- Tem uma música que trata das diferenças
entre homens e mulheres, onde você diz que só
tem inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos.
Como as mulheres recebem essa música? Você
diz ainda que não tem inveja da “dissimulação”.
Você acha que as mulheres são dissimuladas,
e os homens sinceros, transparentes?
- (muitos risos) Eu não disse que os homens são
sinceros, transparentes. As mulheres têm mais talento
para a dissimulação. Talento e treinamento,
em função da posição que elas
tiveram que assumir na sociedade, que induz esse treinamento.
Também uma letra de música para ser concisa
e engraçada utiliza esses recursos. Quando toco essa
música ao vivo elas adoram. No momento em que falo
dos orgasmos múltiplos, as mulheres gritam na platéia.
- Como você vê a presença do Gilberto
Gil, seu amigo e parceiro das antigas, no Ministério
da Cultura. Você acha que isso contribuiu para ele
e para o Brasil?
- Quando o Gil me perguntou se deveria
aceitar o convite de Lula para ser ministro, eu disse que
por mim ele não
iria. Agora já estou acostumado a conviver com ele
como ministro. Acho que ele se saiu muito bem, deu uma
grande visibilidade para o governo. Eu disse a ele que
ele corria o risco de ser o Lula do Lula e acho que isso
acabou acontecendo.
- O que é ser Lula do Lula?
É ser o símbolo de um símbolo. Mas
o ministério dele, assim como o governo do Lula não
se resume a isso. Teve muitas conquistas importantes, não
só no Brasil, mas a nível internacional ele
reforça a visibilidade de Lula e a simpatia que o
governo tem. O presidente é querido também
entre os europeus e Gil reforça isso. Gil é
um sujeito politicamente muito especial, ele nunca foi da
esquerda convencional, mas também traz muitas nuances
importantes. Só achava negativo para Gil, um desgaste
desnecessário. Mas agora acho que foi bom para o
Brasil.
- Você conhece Porto Seguro, não é?
Fazer um show no lugar onde começou o Brasil tem
algum significado especial para você?
- Muito especial. Quando conheci Porto
Seguro nos anos 70, era um lugar totalmente lindo, sem
nem um quinto das construções
que tem hoje. Fiquei muito apaixonado e senti profundamente
a energia do lugar onde o Brasil tinha sido descoberto.
Aquelas edificações da parte alta da Cidade
Histórica são lindas! Fui ainda com Dedé,
quando Moreno ainda estava pequenininho. A cidade era pequena,
fomos a alguns bares, tudo muito lindo. Naquela altura fui
ao Arrail D´Ajuda e Trancoso e fiquei apaixonado.
O Quadrado de Trancoso ainda é preservado arquitetonicamente
e historicamente. Só que naquela época não
tinha a colonização paulista.
- Como você vê a polêmica: é descobrimento,
achamento, genocício ou encontro de raças?
Como você define esse momento histórico iniciado
em 1500 em Porto Seguro?
- É tudo isso, no mínimo, e muito mais. É
um acontecimento tão grandioso, que todas as suas
palavras cabem e ainda sobra espaço. E uma não
anula a outra. Foi descobrimento, achamento, encontro de
civilizações muito diferentes. Uma atitude
que resultou também em grande parte no genocídibo
da população local. Mas também na anexação
dessa população ao projeto ocidental. E isso
foi feito por Portugal, o país pioneiro da globalização.
- Aos 60 anos, como você se sente? Como está
sua predisposição para os relacionamentos
amorosos?
- Eu estou solteiro. Depende da situação
...
- Após ter conquistado públicos de diversas
línguas, classes sociais e faixas etárias,
o que você ainda pretende fazer. O que o público
ainda pode esperar de você?
- O que pode esperar, não tenho idéia.
Espero continuar fazendo isso que gosto e outras coisas,
como cinema.
- Depois de dirigir o filme “Cinema Falado”,
nos anos 80 e de fazer a trilha do recém-lançado,
“Ó Paí Ó”, você ainda
tem projetos nessa área?
- Depois de “Cinema Falado”, só dirigi
clipes. Mas posso fazer cinema e posso escrever também.
Estou pensando na velhice. A apresentação
como cantor não condiz com a velhice. Ainda não
me sinto distante dos palcos, mas talvez na velhice fique
melhor escrever livros e roteiros de filmes do que me apresentar.
- E sobre o show em Porto Seguro?
Foi ótimo, gratificante. Gostei muito também
de poder voltar na Cidade Histórica, rever a Estrela
Dalva - ou o que restou dela. Tenho uma relação
profunda com a Cidade Histórica, é um local
belíssimo.
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