Porto Seguro - Bahia - Brasil - Sexta-feira, 9 de janeiro de 2009.
 
2007




Opinião
 
Local
 
Turismo
 
Memória
 
Quem Somos
Entrevista Caetano Veloso
Por Hilda Rodrigues


- Com uma obra tão vasta, como você situa o novo disco “CÊ” na sua carreira, um disco que você mesmo já disse que é simples? O que ele tem de interessante e surpreendente para você e para o público?

- Para o público eu não sei dizer direito, mas para mim é um disco liberador e estimulante, porque é realmente muito direto, simples, e ao mesmo tempo rico em sonoridade e idéias.
- Tem uma música que trata das diferenças entre homens e mulheres, onde você diz que só tem inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos.

Como as mulheres recebem essa música? Você diz ainda que não tem inveja da “dissimulação”. Você acha que as mulheres são dissimuladas, e os homens sinceros, transparentes?
- (muitos risos) Eu não disse que os homens são sinceros, transparentes. As mulheres têm mais talento para a dissimulação. Talento e treinamento, em função da posição que elas tiveram que assumir na sociedade, que induz esse treinamento. Também uma letra de música para ser concisa e engraçada utiliza esses recursos. Quando toco essa música ao vivo elas adoram. No momento em que falo dos orgasmos múltiplos, as mulheres gritam na platéia.

- Como você vê a presença do Gilberto Gil, seu amigo e parceiro das antigas, no Ministério da Cultura. Você acha que isso contribuiu para ele e para o Brasil?
- Quando o Gil me perguntou se deveria aceitar o convite de Lula para ser ministro, eu disse que por mim ele não iria. Agora já estou acostumado a conviver com ele como ministro. Acho que ele se saiu muito bem, deu uma grande visibilidade para o governo. Eu disse a ele que ele corria o risco de ser o Lula do Lula e acho que isso acabou acontecendo.

- O que é ser Lula do Lula?
É ser o símbolo de um símbolo. Mas o ministério dele, assim como o governo do Lula não se resume a isso. Teve muitas conquistas importantes, não só no Brasil, mas a nível internacional ele reforça a visibilidade de Lula e a simpatia que o governo tem. O presidente é querido também entre os europeus e Gil reforça isso. Gil é um sujeito politicamente muito especial, ele nunca foi da esquerda convencional, mas também traz muitas nuances importantes. Só achava negativo para Gil, um desgaste desnecessário. Mas agora acho que foi bom para o Brasil.

- Você conhece Porto Seguro, não é? Fazer um show no lugar onde começou o Brasil tem algum significado especial para você?
- Muito especial. Quando conheci Porto Seguro nos anos 70, era um lugar totalmente lindo, sem nem um quinto das construções que tem hoje. Fiquei muito apaixonado e senti profundamente a energia do lugar onde o Brasil tinha sido descoberto. Aquelas edificações da parte alta da Cidade Histórica são lindas! Fui ainda com Dedé, quando Moreno ainda estava pequenininho. A cidade era pequena, fomos a alguns bares, tudo muito lindo. Naquela altura fui ao Arrail D´Ajuda e Trancoso e fiquei apaixonado. O Quadrado de Trancoso ainda é preservado arquitetonicamente e historicamente. Só que naquela época não tinha a colonização paulista.

- Como você vê a polêmica: é descobrimento, achamento, genocício ou encontro de raças? Como você define esse momento histórico iniciado em 1500 em Porto Seguro?
- É tudo isso, no mínimo, e muito mais. É um acontecimento tão grandioso, que todas as suas palavras cabem e ainda sobra espaço. E uma não anula a outra. Foi descobrimento, achamento, encontro de civilizações muito diferentes. Uma atitude que resultou também em grande parte no genocídibo da população local. Mas também na anexação dessa população ao projeto ocidental. E isso foi feito por Portugal, o país pioneiro da globalização.

- Aos 60 anos, como você se sente? Como está sua predisposição para os relacionamentos amorosos?

- Eu estou solteiro. Depende da situação ...

- Após ter conquistado públicos de diversas línguas, classes sociais e faixas etárias, o que você ainda pretende fazer. O que o público ainda pode esperar de você?
- O que pode esperar, não tenho idéia. Espero continuar fazendo isso que gosto e outras coisas, como cinema.
- Depois de dirigir o filme “Cinema Falado”, nos anos 80 e de fazer a trilha do recém-lançado, “Ó Paí Ó”, você ainda tem projetos nessa área?
- Depois de “Cinema Falado”, só dirigi clipes. Mas posso fazer cinema e posso escrever também. Estou pensando na velhice. A apresentação como cantor não condiz com a velhice. Ainda não me sinto distante dos palcos, mas talvez na velhice fique melhor escrever livros e roteiros de filmes do que me apresentar.


- E sobre o show em Porto Seguro?
Foi ótimo, gratificante. Gostei muito também de poder voltar na Cidade Histórica, rever a Estrela Dalva - ou o que restou dela. Tenho uma relação profunda com a Cidade Histórica, é um local belíssimo.